9 de abril de 2018
(86) 99577-9242
portaldodelta.redacao@gmail.com
Logo do Portal do Delta
Publicidade

Postado por Delta em 09/abr/2018

“Bandidos vítimas da sociedade”: Pesquisa do PI aponta motivos de roubos

A criminalidade brasileira é grande e disso ninguém duvida. Homicídios, feminicídios e roubos colocam o país em estado de alerta frente às organizações internacionais. A própria cidade de Teresina está entre as cidades mais perigosas do mundo, inclusive. Os presídios amarrotados se transformam escolas do crime e, o que deveria ser uma ponte de ressocialização, vira mais um desafio brasileiro à criação de políticas públicas.

Apenados em regime aberto ou em liberdade condicional foram os objetos de estudo da pesquisa (Foto: João Brito Júnior)

Muito se discute, seja em nível de estado (poderes Executivo, Legislativo e/ou Judiciário) ou da sociedade civil organizada, mas poucas ou quase nenhuma ação se concretiza rente à prevenção da criminalidade Brasil afora. Foi pensando nisso que um grupo de pesquisadores piauienses, estudante do curso de Direito do Instituto Camillo Filho, coordenados pela professora Adriana Ferro, coletaram dados para entender o que motiva pessoas a cometerem crimes de roubo.

Os resultados foram expostos na manhã desta segunda-feira (09/04), na Vara de Execuções Penais do Tribunal de Justiça do Piauí (TJ-PI), sob a liderança do juiz Vidal de Freitas. A iniciativa acadêmica teve o apoio do Judiciário piauiense justamente para subsidiar investimentos em políticas públicas no setor de Segurança. Dessa forma, entender a origem das causas da criminalidade é prevenir a formação, por assim dizer, de material humano para ilícitos.

SÓ POBRES ROUBAM?

Apenados em regime aberto ou em liberdade condicional foram os objetos de estudo da pesquisa. Infelizmente, muito do senso comum foi confirmado pelo levantamento, já que grande parte dos analisados decorre de más estruturas familiares, passando por sérias realidades sócio-econômica-educacionais. Não é dizer que a amostra aponta que somente pobres roubam, mas toca na ferida brasileira de que há um longo percurso a percorrer na busca pela tão almejada “paz social”.

Ser um Joaquim Barbosa no Brasil é bem mais difícil do que muitos imaginam (Foto: Reprodução)

“Mas conheço várias pessoas pobres que não escolheram o crime”, muitos alegam em discussões infundadas, sobretudo os “doutores do Facebook”. É fato que roubar parte de uma decisão individual, mas também se deve salientar que o Estado brasileiro muito está em dívida com grande parte desses apenados. Ou você acha que é regra pessoas brancas, de famílias bem-sucedidas e com alto nível de instrução, saírem do conforto de uma casa na zona Leste de Teresina para assaltar um trabalhador numa parada de ônibus?

As diferenças sociais são gritantes. Pode parecer que não, mas influenciam bastante no que está desenhado nos presídios brasileiros. Seria lindo se todo preto pobre tivesse o mesmo futuro do ex-ministro Joaquim Barbosa, aquele “Batman Brasileiro” cuja toga do Supremo Tribunal Federal (STF) era a capa de combate na presidência da mais alta corte do país. Mas não é a regra e a exceção, à realidade desta nação, está cada vez mais distante, num contexto em que denunciar racismos e demais fobias às minorias sociais são tidas apenas como “vitimismo” ou “mimimi”.

JOVENS DE BAIXA RENDA E ESCOLARIDADE

Vamos aos dados, para que a própria linha editorial do OitoMeia não seja acusada de defensora de bandidos. A coleta de dados aconteceu entre maio e agosto de 2017 e teve uma amostra de 28 condenados pela Justiça piauiense, com base no ano em que as sentenças foram proferidas. Infelizmente, muito do senso comum foi confirmado, mas com informações palpáveis e que possibilitam debates mais fundamentados sobre o assunto, em vez de uma mera reprodução de discursos em prol de penas mais rígidas (prisão perpétua ou morte) e restrição de direitos aos cerceados de liberdade.

Maioria dos apenados não tem nem o ensino médio completo (Foto: Édrian Santos/OitoMeia)

Todos os apenados entrevistados, por meio de questionário, são homens. A grande maioria foi condenada por crimes violentos contra o patrimônio, ou seja, por roubo. No mesma amostra, são pessoas jovens, cujos ilícitos aconteceram quando tinham idade entre 22 e 25 anos, de forma que 11 disseram ter uma renda familiar de menos de um salário mínimo e 13 informaram variação de até dois salários. No mesmo rumo, a maioria não tem nem o ensino médio completo.

“DINHEIRO FÁCIL”

“A precariedade das relações familiares, a baixa renda, experiências familiares ruins na infância, o exemplo negativo dos pais e/ou cuidadores também foram relatos recorrentes entre os interlocutores. A influência dos amigos, ganhar dinheiro rápido e fácil, para ter acesso a bens que lhes eram inalcançáveis também determinaram a conduta de vários sujeitos”, dizem as considerações finais da pesquisa, sem, é claro, deixar de destacar a influência do álcool e demais drogas ilícitas.

O estudo não identificou um motivo específico para que pessoas cometam o crime de roubo, no entanto alinha o quão é importante tratar de temáticas sociais, sobretudo voltadas à educação, estabilidade familiar e acesso a bens e serviços básicos, para que fosse possível evitar o que acontece hoje no Piauí e no Brasil. O aspecto racial não foi levado em conta pelos pesquisadores, porém 64% da população carcerária brasileira são de negros, de um total de 726.712 internos. Os dados são do Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias (Infopen), divulgados em dezembro de 2017 pelo Ministério da Justiça.

QUESTÃO DE PRIVILÉGIOS

Em nível de informação, fica calara a diferença social entre quem realizou o estudo e os condenados. De um total de 10, os quatro presentes na apresentação do trabalho à imprensa são brancos, de classe média, estudantes universitários cuja faixa etária se assemelha à maioria dos entrevistados, quando cometeram os crimes. Inclusive, os próprios pesquisadores reconheceram privilégios tidos por eles que, possivelmente, nenhum daquele objeto de estudo poderá ter.

Estudante Sonival Mendes reconhece privilégios que explicam não ter sido um possível criminoso (Foto: Édrian Santos/OitoMeia)

“Pelo fato de eu já ter o que eu chamaria de base, que é a questão familiar e educacional, isso me proporcionou a ter uma visão bem mais ampla da realidade e me ajudou a escolher o caminho que consideramos como correto, de ascensão não só econômica, mas também social e familiar”, discorreu ao OitoMeia o estudante Sonival Mendes, aluno do sétimo período do curso de Direito do Instituto Camillo Filho e integrante da pesquisa.

“VÍTIMAS DA SOCIEDADE”

Por outro lado, quem comete ilícito e está dentro dos resultados concluídos pela pesquisa não deve ser tratada puramente como “vítima da sociedade”. Há vários fatores que intervém para que escolha o mundo da criminalidade, estes que podem ter ramificações em outras análises, como a própria coordenadora do trabalho deixou claro, durante a apresentação. Cabe aos ditos esclarecidos e ao poder público tratar o assunto com mais seriedade ao debatê-lo.

Professora Adriana Ferro, coordenadora da pesquisa, e juiz Vidal de Freitas comentam responsabilidade social acerca da criminalidade (Foto: Édrian Santos/OitoMeia)

“Na verdade, eles tomam uma decisão, ao cometerem um crime. Caso contrário, todo mundo desse ambiente cometeria também, o que não é verdadeiro. Muitas pessoas extremamente pobres levam a vida sem cometer crimes. Colocar a culpa só na questão social é complicado, mas é motivo para se trabalhar. Todos deveriam ter acesso à educação e em iguais condições de qualidade, o que também não é verdade”, argumentou a professora Adriana Ferro.

TJ-PI AUXILIA

O Tribunal de Justiça do Piauí, então, serve de ponte para fornecer dados acerca de tal realidade no estado. “Todo mundo sugere soluções para a criminalidade, mas são soluções que não se baseiam em dados. Há fatores que estão influenciando a prática de crimes, sendo a questão da estrutura familiar, da perspectiva de obter bens, que hoje é jogado para a sociedade como necessário, e essas pessoas, pela própria rende e falta de educação, sob a influência de álcool e droga, cometem crimes”, salienta ao OitoMeia o juiz Vidal de Freitas, da Vara de Execuções Penais.

OitoMeia

0 Comentários

Deixe o seu comentário!