27 de abril de 2020
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Postado por Delta em 27/abr/2020

Dignidade na hora de enterrar os corpos

Nestes tempos de pandemia do Covid-19, com a morte crescente de pessoas por todo o Brasil, salta aos nossos olhos algo que estávamos longe de acreditar que ainda fosse possível presenciar em pleno século XXI. Trata-se desse serviço importante à condição humana, o sepultamento de corpos, a forma cristã com que as famílias dão adeus aos seus entes queridos, após a morte destes.

Com o número de mortes se elevando a cada dia, e diante, quase sempre, das precárias situações das estruturas de serviço disponibilizadas às famílias, nesse particular, volta-se, em muitos casos, a práticas medievais de sepultamento, com os corpos enfileirados sendo jogados em valas comuns.

É o que nos mostram as imagens chocantes vindas de Manaus. Ali, na Capital do Amazonas, a Prefeitura foi impelida a cavar valas comuns, denominadas pela administração municipal de trincheiras, para enterrar as vítimas do coronavírus.

Crédito: Michael Dantas/AFP

Mas não só Manaus passa por essa degradante realidade. Em São Paulo, maior cidade brasileira e centro do poder econômico nacional, também existe grande dificuldade para sepultamento das vítimas do Covide-19, e muitos corpos estão sendo colocados em valas comuns. Em Nova York, mais importante polo financeiro da mais poderosa nação do planeta, afetada duramente pela pandemia, muitos dos seus quase 17 mil mortos também foram enterrados em valas comuns, pois não existem mais vagas nos cemitérios formais.

A propósito dessa dramática realidade que a pandemia do coronavírus nos revela, vale a pena uma breve viagem ao passado, para sabermos como eram sepultados os corpos dos que morriam antes da existência dos cemitérios, que surgiram, na visão cristã, para dar dignidade aos corpos humanos, na sua despedida final.

Crédito: Willton Junior/Estadão

No seu livro “Como Fazíamos Sem….”, a jornalista Bárbara Soalheiro nos  lembra que esses lugares “ sinistros, tristes e amedrontadores”, como muitos os qualificam, “certamente não são os lugares mais confortáveis do mundo, mas a vida era muito pior sem eles”

É que antes de alguém ter essa sacada – a de que os mortos fossem enterrados em covas separadas, que ficassem em um terreno específico para esse fim, o costume no Brasil era sepultar os corpos dentro das igrejas.

Corpos eram sepulltados dentro das igrejas

Na maior parte das vezes, não havia caixões e ninguém se preocupava com a profundidade das covas ou com a marcação do local.

Ou seja, debaixo dos pés de todo mundo que frequentava as igrejas para casamentos e batizados ou para as missas dos domingos, repousavam esqueletos e corpos apodrecendo. “ Não é difícil imaginar a quantidade de doenças que a prática ocasionava” , lembra Bárbara Soalheiro.

Foi só na metade do século XIX que as coisas começaram a mudar no Brasil. Em 1850, a Câmara de São Paulo decidiu autorizar a construção de um cemitério municipal, o da Consolação, que foi inaugurado oito anos depois, em 1858. Lá estão enterrados vários de nossos presidentes e personalidades nacionais importantes, como a Marquesa de Santos,  o escritor Monteiro Lobato, o escritor Mário de Andrade, Líbero Badaró e ex-Presidente Washington Luís.

Na Europa, os locais apropriados para sepultamentos já existiam desde o século XVI. Mas, embora assim,  o destino do morto dependia soberanamente da sua posição social. Nessa época, os cemitérios dos ricos ficavam próximo às igrejas. Os dos pobres seguiam sendo jogados em uma vala comum, onde os corpos eram despejados sem qualquer identificação e sempre ficavam bem afastados das casas de Deus. Quem não tinha dinheiro para pagar o enterro, nem desejava que seu ente querido fosse parar numa vala comum, guardava o corpo dentro de casa.

Jornais de Londres, de 1830, relatam essas práticas na Europa da época.

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